JOSÉ SARAMAGO



José Sousa Saramago nasce a 18 (ou melhor a 16, porque para evitar a multa de um registo fora de prazo, a família, pobre roubou-lhe dois dias à existência) de Novembro do ano de 1922 na aldeia ribatejana da Azinhaga (Golegã). Sousa, um dos seus apelidos não passará de assinatura literária, trocado (após um lapso no registo de nascimento) por Saramago, até aí a alcunha familiar.

De origem camponesa, trazido ainda menino para Lisboa, não poderá ir além dos estudos secundários por dificuldades económicas, o que não o impede de aceder a meios politizados e intelectuais, onde se vai afirmando o gosto pela leitura e pela escrita. Saramago pode considerar-se, em muitos aspectos, um autodidacta, hoje dotado de uma cultura vastíssima e multifacetada, a par do desempenho das mais diversas profissões até ter atingido o profissionalismo como escritor. Algumas das experiências profissionais de Saramago ajudam a explicar a orientação da sua obra, em grande parte escrita e publicada quando o escritor contava mais de cinquenta anos de idade. Dentro dessas experiências deve destacar-se a do jornalismo, em relação directa com a sua actividade como cronista.

Saramago cujo recente Nobel justamente se celebra concebe os seus principais romances a partir dos finais dos anos setenta; é já há muito um nome conhecido, mas a irradiação literária desse nome pelo mundo inteiro ocorre numa fase da vida em que muitos já pararam ou se desiludiram – perto dos sessenta anos de idade. Tarde, mas ainda em momento oportuno, Saramago será o mais persistente, elogiado e duradouramente premiado, dos raros que em Portugal conseguiram fazer da literatura uma actividade profissional – no seu caso a tempo inteiro, digamos, desde 1976. Em 1924, os pais de José vieram trabalhar para Lisboa.

Na capital, o jovem frequenta o ensino liceal e técnico e exerce o seu primeiro ofício: serralheiro mecânico. Matricularam-no na Escola Industrial Afonso Domingues (era um ensino industrial bastante curioso porque se aprendia Literatura e Francês) e assim começou o seu interesse pelos livros. Durante cinco anos, frequentou aquele curso, à razão de cinquenta escudos por ano. Não fora as dificuldades económicas e talvez tivesse sido engenheiro. Mas exercerá muitas outras profissões: desenhador, funcionário de saúde e previdência (aos 18 anos), editor, jornalista. A par de uma militância política mais nítida a partir da década de setenta, à qual perto de trinta anos depois se manterá fiel.

Mas a lealdade de Saramago ao seu compromisso ideológico e prático com o PCP não o impedirá já numa fase de renome internacional, de afirmar forma de descrença pouco correntes na sua família política – por exemplo, o cepticismo sobre a possibilidade de mudar a natureza humana (“o partido como um sol, como um deus, não significa que, uma vez por outra, quando se está ao sol, não se procura sombra, e que mesmo aqueles que crêem em Deus não tenham as suas dúvidas (…) Não, não estou em crise de fé, nem me refugiei na sombra. O que acontece é que a minha relação com o partido é muito mais saudável do que isso. Eu não considero que o meu partido – e isso põe-se em relação ao PCP como se poderia por em relação a qualquer outro -, eu não considero que o meu partido seja competente em matéria literária e, em geral, artística. Por muito respeito que eu tenha, e tenho, com os meus camaradas com as responsabilidades directas e imediatas do meu partido, não os considero realmente tão competentes ao ponto de me poderem dizer como se faz, e se o que fiz está bem feito ou mal feito. Prefiro que gostem daquilo que faço, mas se porventura acontecer não gostarem, paciência …”).

Não propomos aqui uma apreciação de fundo ou de conteúdos da obra de José Saramago, muito menos das suas escolhas políticas e cívicas, apenas a indicação, aproximadamente cronológica de alguma datas e pontos de referência numa carreira que suscita cada vez maior atenção crítica, por parte dos mais diferentes olhares e gerações.

Em 1944 casa pela primeira vez com a pintora e gravadora Ilda Reis; nasce uma filha, Violante (hoje bióloga a trabalhar na Madeira).

É em 1947 que se estreia no romance com Terra do Pecado, na Editorial Minerva (reed. Editorial Caminho, 1997). Começa assim uma longa carreira, diversas vezes interrompida cujo resultado todos estão nessa altura longe de prever. Só quase duas décadas depois (em 1966) publicará, na colecção «Poetas de Hoje» da Portugália, Os Poemas Possíveis (reed. Caminho, 1992).

Em 1969 adere ao PCP, ao qual a forma marcelista da ditadura não augura possibilidade da legalização.

Em 1970 publica o segundo livro de poemas, Provavelmente Alegria, na Livros Horizonte (reed. Caminho, 1985). É neste ano que se divorcia da sua mulher, quando inicia uma longa relação com a escritora Isabel da Nóbrega.

Em 1971 está na redacção do «Diário de Notícias». Na Arcádia, publica Deste Mundo e do Outro (reed. 1986).

Em 1972/73, no «Diário de Lisboa», é comentador político e durante alguns meses coordenador do suplemento cultural. Reúne crónicas escritas para «A Capital» e o «Jornal do Fundão» sob o título A bagagem do Viajante (Futura, 1973, reed. 1986).

Em 1974, edita («Seara Nova» / Futura) As Opiniões que o «DL» Teve, reunindo textos saídos no vespertino.

Em Abril de 1975 é dirctor-adjunto do «DN». Deixa o jornal com o 25 de Novembro. A veemente militância desse período (que não repudiará tornam difícil adivinhar o Saramago quase consensual, ácido mas cortês que o mundo conhece hoje. Publica novo livro de poemas, O Ano de 1993, na Futura.

Em 1976 sai o livro Os Apontamentos, onde reúne editoriais e crónicas do «DL».

Em 1977 regressa ao romance com Manual de Pintura e Caligrafia, na Moraes Editores.

No ano seguinte, um livro de contos, Objecto Quase, ainda na Moraes (reed. 1984, Caminho).

Em 1979 surge a sua primeira obra dramática, A Noite (Caminho), ganhadora do Prémio da Associação de Críticos Portugueses. Esta foi uma das mais conseguidas peças sobre o 25 de Abril, que tipifica o impacto imediato da revolução democrática nos conflitos internos à redacção e á oficina gráfica de um jornal, e escreve ainda para a Bertrand «O Ouvido», no volume colectivo A Poética dos Cinco sentidos.

Em 1980 sai o romance Levantado do Chão, na Caminho, que passou a ser a sua editora regular em Portugal. A CML atribuiu-lhe o Prémio Cidade de Lisboa. Publica a peça Que farei com Este Livro?

Em 1981 entrega ao «Círculo de Leitores» o texto para o volume ilustrado Viagem a Portugal (reed. Caminho, 1984, com novas fotografias, só a partir de 1981 se seguindo edições estrangeiras a começar por Espanha).

Em 1982, podemos considerar aberto o caminho da consagração, em forma de romance: Memorial do Convento, obra excepcional (que até 1998 não conseguirá o apreço da vereação PSD de Mafra …), depois da qual muitos olharão para trás, procurando explicar e reconduzir as pedras anteriores desse caminho ao triunfo que se desenha. Em 1982 ganhou o prémio do PEN Clube Português com Memorial do Convento, a par do Prémio Literário Município de Lisboa pelo mesma obra.

Em 1984, um heterónimo de Fernando Pessoa é invocado romanescamente em O Ano da Morte de Ricardo Reis. A divulgação que a obra pessoana tem já em vários países soma-se ao engenho da ficção, apoiada em meticulosas recriações da época. Em 1985, com O Ano da Morte…, ganhou o Prémio do PEN Clube Português e o Prémio da Crítica (Associação Portuguesa de Críticos).

Em 1986, o mesmo romance ganha ainda o Prémio Dom Dinis, atribuído pela fundação da Casa de Mateus. Mas 1986 é também o ano de A Jangada de Pedra, uma ideia de génio que, com a Península arrancada ao continente e quarenta mil exemplares no país até ao fim desse ano, cedo se torna um êxito internacional (Barcelona, 1987, na Seix Barral, trad. de Basílio Losada; ed. alemã, 1988; versões em mais de dez línguas). Saramago que durante décadas vivera com a escritora Isabel de Nóbrega (à qual dedicou muitos dos seus livros), conhece Pilar del Río, jornalista em Sevilha, indissociável de uma nova fase da sua vida e também da sua obra.

Em 1987 volta à escrita teatral com A Segunda Vida de Francisco de Assis. Em Itália, Prémio Grinzane-Cavour, ainda por O Ano da Morte…

1988 é o ano de casamento com Pilar del Río, que virá a ser a sua tradutora.

Em 1989 publica o romance História do Cerco de Lisboa. De Maio de 1990 data a estreia mundial da ópera Blimunda (inspirada no Memorial…), no Scala de Milão, música de Aziu Corghi, encenação de Jérôme Savary. Divara será outra ópera (com base em In Nomine Dei), três anos depois, na Alemanha.

Em 1991 O Evangelho Segundo Jesus Cristo dá origem a polémicas e equívocos, mas vale-lhe, finalmente, o Grande Prémio do Romance e Novela, da Associação Portuguesa de Escritores.

Em 1992, o subsecretário de Estado da Cultura (PSD), Sousa Lara, recusa autorizar a participação do romance num prémio internacional. O episódio terá contribuído para o exílio voluntário de José Saramago, que nem por isso corta os vínculos com a sociedade portuguesa nem as frequentes visitas ao país. Em 1993 vive já na ilha espanhola de Lanzarote (Canárias).

Levantado do Chão, nesse ano publicado em italiano na trad. de Rita Desti (ed. Bompiani), vale-lhe o Prémio Internacional Ennio Flaiano. A luz mediterrânea já acolheu Saramago; ainda em Itália, recebe o Prémio Internacional Literário Mondello em Palermo e o Prémio Literário Berancatti em Zafferana na Sicília ambos pelo conjunto da sua obra. E sucedem-se condecorações e doutoramentos «honoris causa». Neste ano, data de In Nomine Dei, ganha o Independent Foreign Fiction Award, a propósito da edição inglesa, em 1992 de O Ano da Morte de ...; e recebe da Associação Portuguesa de Escritores o Prémio Vida Literária. 1994: 1º tomo dos Cadernos de Lanzarote, diário do escritor e cidadão.

Em 1995, outro romance Ensaio sobre a Cegueira, e o II volume do diário; Saramago é distinguido com o mais importante troféu literário para obras em língua portuguesa, o Prémio Camões. A Sociedade Portuguesas de Autores dá-lhe o Prémio de Consagração. Em 1996, os três primeiro tomos Cadernos de Lanzarote são reunidos pela ed. Alfaguara, de Madrid (trad. Eduardo Naval).

Em 1997 (IV volume do diário), o romance Todos os Nomes arranca com quarenta mil exemplares de tiragem. Nesse ano o Memorial do Convento está disponível em vinte e dois idiomas. O Conto da Ilha Desconhecida sai na Assírio & Alvim, sai o 5º tomo dos Cadernos e Saramago, em Frankfurt ou mais longe, é, em 1998 como em 1997, o mais visível dos vivos.

E, contra os prognósticos de um pessimismo pessoal e colectivo que ameaçava converter-se em tradição, Saramago ganha o Prémio Nobel da Literatura, dando a Portugal e à língua portuguesa, a grande estreia na modalidade

Obras e Temas

Se a vida ultrapassou a realidade também a verdade foi a tentativa de ir ao encontro dos outros que entregou a Saramago a explicação de uma felicidade quase inexplicável. E o reconhecimento, mais importante do que o conhecimento, do amor.

Se ele mostrasse uma macieza oculta pela dureza, acusá-lo-iam de estar a tentar vender um produto. É mais fundo do que isto que ele escreve a propósito de Levantado do Chão, Saramago escreve: “Um escritor é um homem como os outros: sonha. E o meu sonho foi o de poder dizer deste livro, quando o terminasse: ‘Isto é o Alentejo’. Dos sonhos, porem, acordamos todos e agora eis-me não diante do sonho realidade, mas da concreta e possível forma do sonho. Por isso me limitarei a escrever: ‘Isto é um livro sobre o Alentejo.’ Um livro, um simples romance, gente, conflitos, alguns amores, muitos sacrifícios e grandes fomes, as vitórias e os desastres, a aprendizagem da transformação, e mortes. É portanto um livro que quis aproximar-se da vida, e essa seria a sua mais merecida explicação.”

De todos os romances do escritor se poderia dizer a última frase, até de um dos romances mais extraordinários que escreveu o Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984. Outro romance extraordinário seria, Todos os Nomes, 1997, onde o processo de Ricardo reis se completa. O mistério de um nome, de todos os nomes. Não se esqueçam de que «Ricardo Reis regressou a Portugal depois da morte de Fernando Pessoa».

Devedor e admirador de um poeta como Pessoa, reconheça-se em Saramago a embirração que a pessoa de Pessoa lhe provoca por mor de um intelectualismo dormente, um pouco niilista e um pouco febril e anestesiado, que repugna ao lutador e ao crente na capacidade da capacidade humana. Pessoa, aquele que recusou aproximar-se da vida, aquele que recusou, como o heterónimo escreveu, «ser de companhia». A Pessoa deve Saramago o seu Ricardo Reis e a invenção de uma Lisboa tão esplendorosamente solitária e desolada, habitada de fantasmas e silhuetas que deslizam sobre o empedrado como a Lisboa de Pessoa.

Assim: “A tarde está muito bonita. Ricardo Reis desceu ao Chiado, a Rua Nova do Almada, queria ver os barcos de perto, da beirinha do cais, e quando atravessava o Terreiro do Paço, lembrou-se de que em todos estes meses nunca fora ao Martinho da Arcada, naquela vez parecera a Fernando Pessoa que seria imprudência desafiar a memória das paredes conhecidas, e depois não calhou, nenhum deles se lembrou mais, Ricardo Reis ainda tem desculpa, ausente tantos anos, o hábito de frequentar aquele café, se o cegou a ter, quebrara-se com a ausência. Também não irá lá hoje. Os barcos, vistos do meio da praça, pousados sobre a água luminosa, parecem aquelas miniaturas que os comerciantes de brinquedos põem nas montras, em cima de um espelho, a fingir de esquadra e porto de mar. E, de mais perto, da beirinha do cais, pouco se consegue ver, dos nomes nenhum, apenas os marinheiros que vão de um lado para o outro no tombadilho, irreais a esta distância, se falam não os ouvimos, e é segredo o que pensam.”

Esta Lisboa mansa é também a de Cesário, a de todos nós. Pela cidade deserta e húmida esvoam memórias, segredos, fantasias, mantos diáfanos que cobrem as vidas. Um dia, como desliza pelo Cais das Colunas em certas horas violeta o vulto de Pessoa, descerá um travessa da Madragoa, a dobrar um esquina de vento, o vulto de Saramago, um pouco curvado, alto, o passo estugado e seco. O homem está na sua ilha de luz, mas deixou por aqui pedaços de si, pedaços que regressam dentro dos livros. Lisboa é uma cidade cercada, de cujo o cerco ele escreveu a história. Uma cidade amada como uma mulher, e é disso que trata a História do Cerco de Lisboa, 1989, o primeiro romance que José Saramago dedicou a Pilar del Río, a mulher, um nome que contém, para ele, hoje, todos os nomes.

Se o romance anterior, A Jangada de Pedra, era um romance de tese, uma Península Ibérica que profeticamente se liberta da Europa e navega Atlântico fora, um livro de evasão de um território desconhecido – uma Europa política, mercantil, unificada à força, que desencadeia no escritor um anti-europeísmo arreigado e céptico - , História do Cerco de Lisboa, é um romance de regresso à pátria dessa «raça de inquietos» que se afastara na sua jangada de pedra. Mas as obsessões que percorrem toda a obra do autor, permanecem iguais, repetidas, estão em todos os lugares da sua novelística, e antes dela nas compilações das crónicas de jornais, as mais belas reunidas sob o belo nome de A Bagagem do Viajante, 1973. São, em resumo exemplar, o que ele escrevera n’ A Jangada de Pedra: «(...) O breve e inconcluso diálogo sobre o sentido dos nomes e o significado dos sonhos.»

Foi num sonho que lhe apareceu o nome d’ O Evangelho segundo Jesus Cristo, 1991 (“O ponto de partida desta história são os Evangelhos, como são conhecidos, sobre a existência que se supõe ter sido a de Jesus. Mas os Evangelhos falam apenas de alguns episódios da infância, escassíssimos, e depois da parte final da sua vida, quando começam os milagres, etc. Entre estes dois momentos há um grande vazio, era preciso ocupar ou encher todo o tempo que resta; mais, era necessário dar-lhe uma coerência. Assim, há uma invenção que não é menor do que nos romances anteriores ou em boa parte deles.

Acresce que neste livro se pretende – à luz de uma vida que não está contada nos Evangelhos, e que é inventada neste – fazer uma revisão dos próprios factos narrados naqueles evangelhos. Ou seja: é a invenção que dá um sentido novo aos dados supostamente adquiridos.”), e é um sonho toda a história da construção desse sonho megalómano chamado Convento de Mafra, escrito quase dez anos antes. Estes são os dois romances mal amados e mal entendidos e mal lidos de José Saramago. E os dois romances que contribuíram, por excesso e defeito, para a sagração. Um, porque toda a gente diz que o leu e que gostou muito mas que tem muita pena de só ter lido esse. O outro porque ninguém o leu e toda a gente diz que não gostou nada porque é ininteligível e irreligioso. Soube-se agora nem um nem outro, pelo menos o primeiro, constam dos programas escolares dos estudantes portugueses. Será, ainda aqui, preciso o Nobel alheio para nos devolver o que sempre nos pertenceu.

Saramago aprecia a contradição, mas a ironia suscita-lhe reserva mental que não favorece a pátria nem a contemporaneidade. Memorial do Convento, história de Baltasar e Blimunda, é o livro em que o narrador omnisciente o omnipresente de Saramago apresenta pela primeira vez aos leitores uma voz original, inconfundível, o que se convencionou chamar pelo dogma e pela tradição estilo. Do livro saiu a ópera Blimunda, musicada por Azio Corghi, que explica: “Encontrei no Memorial qualidades que, para um músico, se revelam não só do ponto de vista dramaturgico, mas também pelas ideias que sempre me ligaram a Saramago: o mundo, as questões humanas e as lutas contra a intolerância e violência” E de Blimunda se pode dizer que saiu o convite para a ópera In Nomine Dei, 1993, encomenda dos alemães que os portugueses nunca viram.

O estilo Saramago, se já se denunciava nas crónicas e nos romances anteriores, instala-se em Levantado do Chão, com uma pujança de retórica clássica, barroca que descende em linha recta de Vieira, com poalha doirada do Século de Ouro espanhol. Este romance entronca numa árvore realista de ramos eriçados de preocupações sociais, militantes, empenhadas, uma certa ingenuidade que estava presente em Terra do Pecado, «obra de juventude» de 1947, agora reeditado pela Caminho. Terra do Pecado, só pelo nome, soa a filme italiano dos anos quarenta, a preto e branco, sofrido, dorido, neo-realista.

A falência do modelo marxista é, para Saramago a falácia dos homens. A primordial.

Se em Levantado do Chão, de 1980, só a apreciação da tristeza e da infelicidade dos homens o preocupava e lhe empurrava a mão literária, em Ensaio sobre a Cegueira, 1995, é o espanto, o horror pelos desastres do mundo que o comovem e envolvem e enraivecem. Todo o livro é um manual de violência, violências que geram outras violências, até a humanidade brutalizada ser arrastada numa colectiva cegueira branca, instantânea, cegueira que a reconduzirá, por hipótese, à recuperação da visão. Só sabemos que temos o que temos quando perdemos o que temos. A alegoria, o caracter simbólico das acções, a parábola moral são outras constantes de José Saramago, e constantes que fazem sentir Memorial do Convento, de 1982, abre com uma citação de Margarit Yourcenar: “Sei que caio no inexplicável, quando afirmo que a realidade – essa noção tão flutuante - , o conhecimento o mais exacto possível dos seres é o nosso ponto de contacto, e a nossa via de acesso às coisas que ultrapassam a realidade.”.

Prêmio Nobel

Depois de vários anos em “lista de espera”, José Saramago ganhou o Nobel da Literatura, quando já nem ele próprio tinha esperanças de consegui-lo. Ficou surpreendido emocionado ao saber da notícia, no aeroporto de Frankfurt, momentos antes de apanhar o avião de regresso a casa, depois de Ter visitado a Feira do Livro a decorrer naquela cidade alemã. O escritor dedicou o prémio a todos os falantes de português. O anúncio foi recebido com orgulho em Portugal. A Igreja não gostou.

Em treze horas em ponto em Estocolmo e meio-dia em Portugal quando a Real Academia Sueca anunciou aquilo que, seguindo a norma habitual da venerável instituição, estava há várias semanas prometido para um “quinta-feira de Outubro”, sem data certa: o nome do Nobel de Literatura 1998. O prémio foi para José Saramago, que se tornou no primeiro escritor de língua portuguesa a receber a distinção.

Por uma vez as especulações que todos os anos precedem o anúncio do Nobel foram parcialmente cumpridas, pois José Saramago estava já há vários anos em “lista de espera” para o prémio, a par de outro português, António Lobo Antunes, do britânico Salman Rushdie, do belga Hugo Claus, do mexicano Carlos Fuentes, do peruano Vargas Llosa, do brasileiro Jorge Amado ou do poeta chinês Bei Dao. O anúncio não constituiu, portanto uma completa surpresa, como aconteceu em 1997 quando o prémio foi atribuído ao Italiano Dario Fo.

Embora fosse um “nobilizável” desde a década de oitenta, quando publicou os romance que lhe deram maior projecção – “Levantado do Chão” (1980), “Memorial do Convento (1982) e “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (1984) - , ou talvez mesmo por isso, porque esperava há muito tempo por um Nobel que não vinha, Saramago teve uma surpresa. “É como levar uma pancada na cabeça. Continuamos a andar e precisamos de nos recompor, antes de repensar nas coisas”, explicou, quando lhe perguntaram qual a sua reacção.

E admitiu que quase perdera a esperança de ganhar o Nobel. “Não tinha quaisquer indicações sobre o que iria acontecer. Na verdade ia a caminho de casa”.

O escritor de setenta e seis anos, recebeu a notícia no aeroporto de Frankfurt, momentos antes de tomar um avião que, via Madrid, o levaria de regresso a casa, em Lanzarote, nas Ilhas Canárias. Estava acompanhado de um dos seus editores, José Oliveira, da Caminho. Ao saberem, os dois abraçaram-se a chorar. Uma pouco mais tarde, já recomposto, Saramago estava de volta ao pavilhão português na Feira do Livro de Frankfurt para enfrentar uma multidão de jornalistas a quem declarou, sorrindo, antes do início de uma conferência de imprensa: “Francamente, preferia ter voltado para Espanha”. Os “flashes” dispararam e muitas das pessoas que trabalham no pavilhão português subiram para cima de cadeiras com rosas na mão.

Elegantemente vestido de cinzento, o escritor, a quem a agência Reuter chama “o grande veterano das letras portuguesas”, dirigiu uma mensagem a todos os falantes de português: “Aceitem como vosso um prémio que tem de ser entregue a uma pessoa que o encara como pertencente a todos”. E acrescentou com um gracejo: “Se me permitem, embora o prémio seja de todos, já que estamos nisto, eu fico com o dinheiro”.

Este ano o Nobel da Literatura é no valor de 7,6 milhões de coroas suecas, cerca de 166 mil contos que serão entregues oficialmente a dez de Dezembro em Estocolmo.

“Uma pessoa retira vantagens do facto de ser mais visível e audível… Não tenho nada a acrescentar ao que tenho vindo a dizer há muito tempo, continuarei a dizê-las. Se houver motivos para dizer outras coisas, fá-lo-ei”, declarou ainda Saramago. Uma das primeiras pessoas a cumprimentá-lo foi o seu antigo editor na Alemanha, Michael Naumann, nomeado ministro alemão da Cultura do recém-eleito Governo social-democrata alemão. Naumann declarou aos jornalistas que o prémio “é muito importante para Portugal”. “Têm que compreender que um país tão marginalizado pode tornar-se conhecido em todo o mundo na área da literatura”, disse aos jornalistas, em Frankfurt.

As vendas dos livros de Saramago, um escritor que alcançou o primeiro êxito literário já depois do sessenta anos, embora tivesse começado a escrever ainda jovem – publicou o primeiro livro, “Terra do Pecado” em 1947 -, vão disparar a partir de agora em todo o mundo.

Em Portugal, José Saramago recebeu muitas outras distinções, como o Grande Prémio do Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), com “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, em 1991, e o Prémio de Camões, que distinguiu a sua carreira em 1995. “A atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago suscitou uma vaga de orgulho nacional. Políticos e intelectuais saúdam este reconhecimento internacional no domínio cultural, após os êxitos que foram, este ano, a Exposição de Lisboa e a entrada de Portugal no núcleo duro da “moeda única”. O Presidente da República, Jorge Sampaio, considerou o Nobel “a consagração definitiva do português” na pessoa de um “artesão e de um criador de uma obra universal”. “Todos nós, sejam quais forem as nossas convicções políticas, lhe agradeceremos ter-nos dado hoje uma satisfação colectiva”.

O Conselho de Ministros também se congratulou com o “reconhecimento internacional de Portugal”. Um dos seus livros, “O Evangelho segundo Jesus Cristo” (1991) suscitou várias reacções negativas por parte dos sectores mais conservadores e católicos. A Igreja não gostou que Saramago tivesse sido escolhido para o Nobel e “L’ Osservatore Romano” manifesta-se contra a decisão da Academia Sueca: Saramago “é ideologicamente um comunista inveterado”, afirma o diário do Vaticano.

Fonte: paginas.terra.com.br

ANTERIORTopo da PáginaPRÓXIMO

MUNDO NA NET PÁGINA INICIALVOLTA PARA ESCRITORES