
As descobertas mais surpreendentes de ossadas de dinossauros, desde que o termo foi usado pela primeira vez no século XIX, certamente foram registradas nos últimos anos, no Brasil e na Argentina. Foi no Rio Grande do Sul, por exemplo, que pesquisadores ingleses encontraram parte dos ossos de um dos dinossauros mais primitivos do mundo, o Staurikosaurus pricei. Foi a primeira vez que se nomeou um dinossauro brasileiro. Hoje, são oito espécies formalmente descritas.
Isso foi nos anos 60, mas desde a década de 50 pesquisadores alemães estudavam a possibilidade do Brasil ter em suas rochas sedimentares restos de ossos de dinossauros, termo comum que designa a família dinossauria, descrita pela primeira vez em 1842, pelo paleontólogo inglês Richard Owen. O termo dinossauro, empregado largamente para outras famílias de grandes répteis como os pterossauros, significa "lagartos terríveis" em grego e nomeou um grupo especial de animais até então desconhecidos.
Depois, na década de 70, dois geólogos brasileiros (Arid e Vizotto) encontraram ossadas do Antarctosaurus brasiliensis, em São Paulo. Há uma quebra nas descobertas de ossadas, ou talvez, na descrições dos animais, retomadas a partir dos anos 90. Foi quando paleontólogos encontraram os espinossaurídeos Irritator e Angaturama, no Ceará, e o Gondwanatitan faustoi, também em São Paulo.
Ainda do Ceará, há um dinossauro terópode, considerado um parente distante do Tiranosaurus rex. É o Santanaraptor placidus, um animal bípede, carnívoro e extremamente rápido na locomoção. Uma reconstituição desse dinossauro está exposta no Museu de Ciências da Terra, do Departamento Nacional de Produção Mineral (DPNM), no Rio de Janeiro. Pela sequência de descobertas, vem o Staurikosaurus, de 1970, o Antarctosaurus, de 1971, o Irritator challengeri (descrito em 96 por pesquisadores na Inglaterra), e o Angaturama limai, também de 1996. Os quatro restantes foram todos achados em 1999, o Guaibasaurus candelarai, o Gondwana faustoi, o Saturnalia tupiniquim e o Santanaraptor.
Para o paleontólogo Diógenes de Almeida Campos, do DNPM, as descobertas feitas no Brasil, bem como as na Argentina, ajudam a entender como era a fauna no hemisfério Sul, em eras geológicas. "Passamos a dispor de dados diferentes daqueles apresentados por pesquisadores do hemisfério Norte, trazendo assim um novo quadro para a pesquisa geológica", avalia.
Em 1970, ele começou a fazer prospecções em Santana do Cariri, a serviço do DNPM, com o objetivo de reunir o material coletado em museu e, assim, preservar os fósseis e o local onde eles afloravam. "É irônico porque se não escavar não acha o fóssil, mas o lugar vai ficando um pouco desfigurado com as escavações", observa.
Vestígios de seres foram encontrados por ele, até que em 85 Campos descreveu o que chama de um tipo de primo do peixe, o pterossauro Anhanguera. Algumas peças desse animal estão expostas no Museu de Paleontologia da Universidade Regional do Cariri, que tem um acervo de mais de 750 peças de fósseis coletados na região.
Depois, com seu aluno de doutorado Alex Kellner, ele descreveu outros dois pterossauros, o Tapejara e o Tupuxuara. Há três anos, foi descrito o Tapejara imperator animal de porte médio que tinha uma enorme crista, maior até que ele mesmo. "É preciso aprofundar os estudos, não se sabe, por exemplo, para que servia esse adereço, se para seduzir a fêmea ou para outro fim", explica.
Foi também Diógenes Campos quem encontrou o Angaturama, especificamente a parte anterior do crânio e dentes. Um detalhe que se abstraiu dessa descoberta foi a dieta desse espinossaurídeo, que devia comer somente peixe e, por isso, devia viver perto de um lago salgado e raso. Angaturama quer dizer, na linguagem indígena, companheiro de viagem. Outro indivíduo de um grupo raro entre os dinossauros, encontrado por ele, foi o Baryonyx que significa unha pesada. Essa família também comia peixes e é rara porque não tem os dentes serrilhados, como é comum nos dinossauros.
Para Campos, é preciso buscar mais e mais fósseis de dinossauros no Brasil e estudá-los. "Cada descoberta, traz mais luz sobre a história da evolução da vida", justifica. Hoje, junto com outros paleontólogos, ele descreve um dinossauro encontrado há 30 anos por Price, em Mato Grosso, na Chapada dos Guimarães. O animal não fora descrito ainda por falta de dados suficientes, mas com achados recentes na Argentina, os pesquisadores brasileiros obtiveram elementos para a tarefa. Campos acredita ter a descrição pronta ainda este ano.
Ele considera o Brasil um lugar extremamente rico para a pesquisa paleontológica, especificamente, sobre os grandes répteis, porque só aqui foi encontrado tecido mole dos dinossauros. "Isso permitirá a análise dos tecidos, para entendermos a anatomia mole do animal, descrever os vasos sangüíneos, saber como era sua temperatura corporal", completa. (Lana Cristina)
Brasil é rico em fósseis de dinossauros.

O fóssil é a única forma de se comprovar a existência de algum animal em outras eras já que, por definição, é o resto ou vestígio de seres orgânicos que deixaram suas impressões nas rochas da crosta terrestre. Assim, em locais onde há rochas sedimentares com a mesma idade dos dinossauros é possível encontrar fósseis desses répteis.
Para auxiliar o posicionamento temporal das rochas e fósseis, pode ser feita uma datação baseada na análise do pólen ou de esporos(estruturas reprodutivas de fungos) fossilizados.
O Brasil, por apresentar grandes bacias sedimentares, é considerado um país de razoável patrimônio fóssil. Há sítios paleontológicos de norte a sul, alguns descobertos há quase cem anos e outros mais recentes. O paleontógo Ismar de Souza Carvalho, do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro descobriu, entre os anos de 91 e 92 nas praias ao norte da ilha de São Luís e na Praia da Baronesa, perto de Alcântara, Maranhão, pegadas de dinossauros.
É também no Maranhão que se localiza a maior ocorrência aflorante de fósseis de dinossauros no Brasil, a "Laje do Coringa", que fica na costa oeste da Ilha do Cajual, na baía de São Marcos, perto de São Luís. Ela foi descoberta em 1994 pelo geólogo Francisco José Corrêa Martins, da UFRJ e Ministério do Exército, através da análise de imagens de satélite e fotografias aéreas. O trabalho de Corrêa Martins resultou em um mapa geológico detalhado da região, que vem sendo utilizado por outros pesquisadores.
No Acre, há registro de fósseis de um crocodilo gigante. Em São Paulo, há várias localidades como Monte Alto, Marília, Presidente Prudente e Álvares Machado. São sítios registrados na bacia do Paraná. Bem perto desses municípios, está o sítio de Peirópolis (MG), cidade a 25 Km de Uberaba, no Triângulo Mineiro. Lá, há um museu temático exclusivo de dinossauros, cuja atividade agrega o trabalho de quase 300 moradores.
A história da cidade é tão interessante quanto o próprio museu. Há mais de 20 anos, a atividade econômica que imperava era a exploração de calcáreo. As pedreiras traziam grande prejuízo ambiental, como a poluição da água e a densa quantidade de poeira em suspensão. A população tentou, por várias vezes, sem sucesso, a paralisação da pedreira. Eles se juntaram, unidos numa associação de moradores, a uma organização não-governamental ambiental e propuseram à prefeitura que se fosse encontrado um fóssil (já se tinha notícia da descoberta de ossadas), a pedreira encerraria suas atividades. Foi preciso, no entanto, que um juiz, no início da década de 80, embargasse a atividade.
A prefeitura investiu na construção do museu e no treinamento de funcionários. A atividade cresceu de tal forma que está ligada à cooperativas de doces e guloseimas, envolvendo 300 empregos diretos e indiretos. "O retorno financeiro da visitação é maior", registra Ismar de Souza Carvalho. É de Peirópolis a única ocorrência de ovos de dinossauros fossilizados, de terópodes. O paleontólogo lista ainda Monte Alto, em São Paulo, cidade de 10 mil habitantes que também tem um museu temático. "O museu tem uma visitação de duas mil pessoas por mês e um trabalho educativo muito interessante".

Outro sítio destacado pelo pesquisador é o de Mata, no Rio Grande do Sul, município próximo a Santa Maria. Ali, está um dos maiores depósitos de floresta petrificada, que durante uma época esteve comprometido devido à atividade intensa de mineradoras na região. No local, um padre, hoje com quase 90 anos de idade, o italiano Daniel Cargnin, foi o responsável pela preservação dos fósseis. "Ele brigou com todo mundo até que as mineradoras foram saindo e ainda conseguiu que se preservasse uma grande área", conta Ismar.
Há bons depósitos de coprólitos, que são fezes fósseis, em Uberaba, Monte Alto e Marília. Esse material é uma boa fonte de pesquisa sobre os hábitos alimentares dos animais a que pertenceram e, conseqüentemente, dão pistas sobre a cadeia alimentar (ou seja, que organismo servia de alimento para outro).
Ainda no Nordeste, Ismar destaca o imenso sítio paleontológico, que engloba as bacias de Sousa, Uiraúna, Brejo-da-Freira, Pombal (PB), e Cedro e Araripe (CE). É a maior ocorrência de pegadas de dinossauros, com milhares de pegadas já mapeadas, embora nem todas descritas. Em Sousa, foi fundado em julho de 1998 o Parque Vale dos Dinossauros que, desde então, já recebeu 45 mil pessoas, segundo seu coordenador, Robson de Araújo Marques.
Há um museu no parque, com material educativo e algumas réplicas de dinossauros. O público visita as pegadas em passarelas suspensas, construídas para que ninguém pise na área fossilizada. "Recebemos visitas até de estrangeiros", conta Robson de Araújo.
É na Ilha do Cajual, onde fica a Laje do Coringa, no entanto, onde está a maior concentração de fósseis de dinossauros por metro quadrado. "Há tantos fósseis que quase não existe rocha, é quase tudo camada de areia e ossos", conta Ismar Carvalho. A superfície de exposição é de, no máximo quatro quilômetros, segundo avaliação do paleontólogo, no entanto, os pesquisadores têm retirado toneladas de fósseis.
Santana do Cariri, Sousa, Monte Alto, Peirópolis. Cidades pequenas, fora do centro detentor de conhecimento. Ismar vê com entusiasmo essa característica positiva da evolução da paleontologia no Brasil. "É uma ação peculiar essa a de descentralizar a detenção do conhecimento, que sai dos grandes centros urbanos e vai para o interior", observa.
Devido à importância científica das jazidas fossilíferas, há um grupo de pesquisadores preocupados com sua preservação. Há cerca de dois anos, formaram a Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos (Sigep), que deve encaminhar ainda este ano uma lista com os sítios nacionais que poderiam se candidatar ao título de patrimônio mundial, dado pela Unesco (agência da ONU para educação, ciência e cultura).
Segundo Diógenes de Almeida Campos, que preside a comissão, ainda este ano será publicado um livro com 70 sítios. A obra trará fotos, métodos usados para preservação, descrição suscinta do sítio e o que representa na história da evolução da Terra, além de quais critérios são adotados para que seja caracterizado como sítio geológico.
O objetivo, com o livro, é chamar atenção das autoridades para a importância da preservação dos sítios. "Conservá-los é fundamental devido ao interesse científico e até mesmo turístico. Afinal, muitos se tornam ponto de visitação e é preciso que as pessoas saibam fazer o turismo científico com cuidado", observa Diógenes Campos. Até hoje, o título de Patrimônio Mundial só foi dado ao Pantanal, enquanto ecossistema de áreas inundadas e as Cataratas do Iguaçu, devido seu valor ambiental.
Fonte: Lana Cristina
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